Sempre usei a bicicleta como meio de locomoção, sem intenções esportivas, a não ser um passeio na praia ou no fim de semana. Tenho uma bike made in Taiwan, Tanger, uma boa bike, com suspensão e grupo Shimano C20 (aqueles antigos, de 18 marchas).
Bem, tudo começou quando, depois de participar de mais de 30 corridas de rua e de nadar há 17 anos, fui questionado sobre fazer um triathlon: Meu amigo e orientador João disse: “Ué, você nada bem, corre bem, por que não faz um triathlon?” Achei loucura na hora, porque a primeira imagem de triathlon que vem na cabeça da gente é a do Ironman. Demorou uns dois dias até eu, navegando na net, me deparar com informações de uma prova de Short Triathlon (750 m de natação, 20 km de bike e 5 km de corrida), parei e pensei: “Nado 2500 m 2 vezes por semana e não morro. Já corri São Silvestre (15 km) e tô vivo, será que dá pra encaixar um pedal aí no meio?”.
A busca na net começou, e não demorou muito para eu me deparar com o site Bikemagazine. A priori, eu achava ser possível encarar a prova com a minha velha bike, mas lendo algumas matérias, entendi as diferenças das bikes e notei que seria sofrível fazer essa prova sem uma bike speed. “Bem, terei que comprar uma speed.”.... fui até uma loja e vi o preço: Pra começar R$ 1600,00. Dei risada e pensei: “Acho que eu ainda vou precisar dos meus dois rins por algum tempo...não dá pra vender um!!”
Fiquei meio frustrado, mas voltando ao site Bikemagazine, li uma matéria sobre o “Seu” Isaias, da Freguesia do Ó, que restaurava Caloi 10. Não demorou nada pra eu pegar o telefone dele e ir até a oficina. O homem é um artista, além de fazer quadros pra bikes alternativas (tipo Harley, entre outras) ele restaura com peças originais Caloi’s 10, 12, Monark 10. Lá estava uma bike, Caloi 10 ano 1985, repintada, completa. Pedi pra dar uma volta e gamei....era a bike para meu bolso: R$300!. O preço varia de acordo com a conservação da bike, e acreditem não foi caro.
Bem, uma C10 é pra passeio esportivo, e com os pneus Levorin 1 e ¼ pol ia ser difícil passar dos 30 km/h de média sem ficar morto...primeiro investimento: Um par de pneus Kenda 1 pol (R$ 25 cada, na Scatt). A bike já melhorou muito, já dava pra rodar com média de 32 km/h sem morrer! Outros apetrechos necessários foram: Ciclocomputador (Cateye, R$48), Clip de mesa (Trans-X, R$60), selim de speed (genérico bom, R$52).
A bike estava pronta para a empreitada. Treinei com ela assim por 20 dias e fui pra primeira prova, da Copa BrasilFit, em Porto Ferreira (SP). Tive um desempenho bom (no meu modo de ver), uma vez que era meu primeiro tri e eu cheguei na frente de muita gente. A bike se comportou muito bem na estrada, uma vez que pedalamos na Rodovia Anhanguera (parecia tapete de camurça!).
Passados mais uns dias, durante um treino, lembrei que haviam pneus de 20 mm de largura, só que não eram compatíveis com a minha bike, uma vez que eram para rodas 700. Fui em várias lojas e ninguém achou possível adaptar as rodas 700 na minha Caloi. Eu olhava pra bike, tirava medidas e pensava: “Se eu adaptar os freios novos pra baixo, no quadro, as rodas servem”. Todo mundo achou loucura, que ra perigoso e tal.
Dos meus conhecimentos de Professor Pardal herdados e amplificados de meu pai cheguei a uma conclusão: “Será perigoso se for uma adaptação com solda e furos extras no quadro, e se for uma adaptação com peças de alumínio, só que a minha C10 é de ferro!!, mais uns 200 g de aço não vão fazer diferença, e terão a resistência necessária.” Dito e feito, arrumei um lingote de aço e cortei ele na medida da traseira da bike, na frente foi feita a mesma coisa só que não tem apoio lateral.
Fiz dois furos nos lingotes, em um deles parafusei no lugar para o freio do quadro, e no outro o freio novo, para aro clincher. Ficou 10! Mal dá pra perceber a adaptação. Super seguro, sem vibrações, e sem afrouxar parafusos.
Foram gastos para esse novo upgrade o seguinte: Par de freios RSX (R$70, na Kuruma), Manetes Shimano 105 (R$70, na Scatt), Aros clincher Kinlin (R$55 cada, na Kuruma), pneus 22c x 700, Maxxis Tricolore (R$65 cada, na Kuruma). Além de uma nova raiação para os cubos de flange alta, que forma mantidos (raiação R$ 50 as duas rodas montadas, na bicicletaria do bairro). Nova bike. Incrivelmente ágil, muito melhor que antes, sem dívida.
Até aqui foram investidos R$ 300 da compra da bike e mais R$570. Pode parecer muito, só que as bikes para triatlhon prontas de fábrica começam em R$ 4 mil, não era o preço de uma parcela (para 6 vezes) de uma bike destas. E com o detalhe que este gasto foi amortizado ao longo de 4 meses, gastando quando eu podia, uma vez que vivo de bolsa (sou estudante).
Fiz mais uma prova em Porto Ferreira, fui muito bem pra uma segunda prova, terminando a prova em 1 hora e 20 minutos, com um bom pedal, inclusive.
Estava tudo indo bem com a bike, quando me lembrei de uma passagem desta última prova, numa descida da Anhanguera, eu tinha gás para pedalar, só que não tinha mais marchas! Afinal, o meu cassete era um Suntour, original, de passeio. A essa altura eu já estava contente com a bike, e não pretendia trocar relação de marcha. Fiquei vendo a hora de fazer alguma grana com consultoria pra poder compra uma speed das novas (ia demorar!).
Um belo dia, passeando com minha velha bike, que está com problemas no cassete, parei na bicicletaria aqui do bairro, e parei pra ver o que ele tinha de cassetes para minha velha bike... e no meio dos cassetes novos, havia um mais antigo, com cara de usado, com 7 marchas não indexadas! Impossível!
Hoje em dia não se usavam mais aqueles cassetes, a não ser numa Caloi 10. Por R$ 50 comprei o cassete Regina, original, com 7 marchas e catraca menor com 12 dentes. Depois de adaptar na minha roda traseira, fui rodar com um foguete. A minha C10 tinha virado uma bike semi-profissional, e agora era uma C 14.
Para disputar a minha última prova de triatlhon do ano instalei os passadores SIS da minha velha bike, que nunca havia sido usados, no clip da C 14, ficou legal e com um aspecto de bike de triathlon.
Fui para Pirassununga e consegui pedalar os 22,5 km em 40 minutos, na frente de muita bike novinha.. minha colocação só não foi boa devido às câimbras que tive na corrida, fazendo esta etapa somente para completar a prova (na agradável companhia da Aliane).
Foram longos meses queimando a mufa pra montar essa bike, e hoje tenho uma bike barata e muito boa pra as provas que faço (sem pretensão de ganhar). A resistência do conjunto é impressionante, nenhum pneu furado em treinos ou prova, nenhum problema de câmbio, sendo o único problema da bike o peso, mas pra um amador está muito bom!